terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Disciplina de História nas escolas e currículo escolar


    A disciplina de história no Brasil, e não só neste país, mas também na América Latina como um todo, é algo de intenso debate nos meios acadêmicos e popular atualmente, pois é difícil compreendermos uma homogeneização no ensino de história em um território tão grande como o do nosso país.
   O Brasil tem muitas heterogeneidades, e nisto há, em vários aspectos, uma luta constante de lados influentes para que exista uma história nacional mais abrangedora nos temas gerais de nossa nacionalidade respeitando os vários lados dos fatos históricos, porém, as possibilidades para se compor um ensino de história que contemple as especificidades do Brasil tem certos limites. E estes últimos, esbarram na cultura escolar, e também, na composição e formação de nossa sociedade dentro da forma escolar que conhecemos, com suas hierarquias e burocracias governamentais atuais.
    A autora Circe Bittencourt em seu texto, "Identidades e Ensino de História no Brasil", discute a idéia de que a história surge como uma disciplina escolar tendo o papel na formação das identidades. Esse trabalho da autora inicia-se com uma questão central que bem mostra a grande heterogenia do Brasil. Na aplicação da Lei de 2003 n° 10639 sobre o ensino de história da África, estão exemplificadas as diferenças dos brasileiros, não só na sua composição histórica no decorrer dos tempos, mas, ainda mais, como certas minorias, ficaram distantes da feitura histórica.
    O tema citado acima encaixa segundo Tomaz Tadeu da Silva no seu texto, "Documentos de Identidade", nas ditas teorias pós-criticas, visto que vêm levantar uma questão de discussão de etnias e multiculturalidade, aspectos muito relevantes nas discussões mais recentes, não que temas em que marxismos e positivismos foram totalmente aniquilados nos ensinos brasileiros, pelo contrário, existem e estão em várias esferas, mas o momento de se discutir as multiculturalidades de nosso Brasil toma uma menção maior em detrimentos as outras discussões escolares. A sociedade brasileira impõe para história a necessidade de contemplar outros personagens no ensino de história, que mesmo com pequenos avanços, ainda mantém os grandes personagens da política e os mais influentes da intelectualidade nacional como os exemplos maiores da educação identitária e modelos de ensino.
   

    Muito se tem do século XIX nos dias de hoje, o ensino de história é constituído por um centro, que é a identidade nacional. Circe Bittencuort demonstra essa questão, quando mostra que em vários períodos históricos nacionais, principalmente nos momentos de mudanças de regimes isso foi percebido (Monarquia/República; Estado Novo; Golpe de 1964; Redemocratização em 1986). Uma linha de pensamento que mostra rupturas e continuidades, uma tradição histórica no Brasil. Há uma imposição de mudanças, no qual os aplicadores dos regimes, que assumem naturalmente o poder, fazem com que o ensino de história se enquadre no seu pensamento momentâneo de mudanças. Contudo, não é algo assim totalitário, como sabemos nada é totalmente unânime em qualquer regime, pois se encontra espaços para a sociedade contestar, nem que seja uma pequena parcela desta, porém, e ainda, uma história política e cronológica mantém seu presente poder do século XIX até o XX, e se pensarmos mais negativamente ainda, até os dias de hoje, nas escolas brasileiras e no pensamento popular.
    Em uma breve recapitulação, se pegarmos os períodos históricos, há no período monárquico brasileiro, como primeiro exemplo, uma construção de uma história nacional bem nítida e intencionalmente posta. No período republicano do final do século XIX há algumas mudanças, se compararmos com o momento anterior, nada de muito revolucionário, mas, em linhas gerais, há uma idéia de homogeneidade nacional intencional do governo, mas tendo que haver a discussão das outras visões, pois tentou criar uma justificativa mental para tudo isso, fazendo com que o ensino de história fosse essa justificação, é uma espécie de prestação de contas para a sociedade de quem somos, ou de quem fomos, é a história que no pensamento dos fazedores de opinião dá para a sociedade a linha contadora da intencionalidade dos poderes mostrarem suas influências. Com o processo de redemocratização do Brasil pós-golpe de 1964 e em 1986, bem depois do já superado período Vargas, discursos marxistas já tomaram parte de um ensino novo para época, visto que desde os anos 60 teorias críticas quer um novo olhar para a história no currículo escolar, percebendo nesse ínterim o poder da educação para esclarecer a sociedade. 
     Os governos até então desenvolveram esses currículos, que hora pende para um lado, hora para outro, sempre pautados por decisões tomadas de cima para baixo, ao invés de ouvir os próprios envolvidos no produto final do ensino, mas nos dias atuais essa perspectiva está em processo de mudança, tal  como na participação das demandas populares, não só na escola, mas na sociedade em geral. Se seguirmos esse exposto, é impossível esconder que no Brasil há uma identidade nacional única, somos muito diferentes em vários aspectos, principalmente no que tange a nossa história, e queremos a legitimação destas várias diferenças, pois bem, é aí que há os conflitos de interesses e poder.
    Se pensarmos que o currículo é uma seleção e selecionar é uma operação de poder, como bem nos fala Tomaz Tadeu da Silva, um limite da disciplina de história estanca nesse ponto, já que na sua constituição foi feita por motivos de formação nacional de uma identidade igual como vimos. Circe Bittencuort em seu texto "Propostas Curriculares de História: continuidades e transformações" demonstram a dificuldade de romper com o currículo antigo, o mesmo, que contempla nacionalidade e eurocentrismo, na visão da autora, quando analisa 23 propostas curriculares entre várias épocas no seu texto, mostra essa afirmativa ainda presente nas escolas de nossa época. Todavia, não há uma proposta se quer que consiga fazer essa ruptura, todas pensam, ou desejam, mas não alcançam esse objetivo de mudar o currículo escolar na disciplina de história escolar. Há uma forma escolar, no nosso modo de ver, tradicional, que está empregada na mente da sociedade brasileira, forma esta que perpassa os muros das escolas e engloba várias partes da sociedade. Compramos a forma escolar, e aplicamos no trabalho, em casa, em nossos grupos de estudos em geral. Uma forma que dificulta a mudança, ou talvez, não temos outra forma para expor uma mudança que seja mais abrangedora.
    Se pensarmos que a escola é um processo de socialização, com os professores, alunos, pais, diretores e funcionários educacionais fazendo parte desde sistema escolar compondo a cultura escolar de uma determinada escola, região e país, no pensamento do autor Viñao Frago em seu texto "Sistemas Educativos, Culturas Escolares e Reformas", cujo autor fala que os professores são os agentes principais desta cultura escolar, se concluímos assim nesta reflexão, eles têm autonomia, mesmo que dentro de uma sociedade em que lhes impõem um currículo composto pelo poder estatal e tendo que trabalhar com a resistência dos alunos e dos pais em muitas partes do nosso país, agentes, que deveriam ser muito mais bem respeitados, visto que a importância de seu trabalho.
    Essa sociedade brasileira, e não podemos esquecer que temos várias classes sociais dentro desta "sociedade", em que, esperam mudanças no currículo, ou não, dependendo do ponto de vista, podemos perceber que nessa discussão há a possibilidade de trabalho com a história temática dos PCNS (Parâmetros Curriculares Nacionais), e mesmo assim, alguns acadêmicos falam que a história temática não é a salvação do ensino, há também limites para ela, tal como o perigo do anacronismo na relação tão explorada por essa perspectiva de ensino que é o presente-passado, mas acadêmico, não entram em sala de aula, é o que muitos professores da rede de ensino dizem, porém, é impossível desconsiderarmos as suas admoestações em matéria de construímos um ensino de história de qualidade.
    Circe Bittencuort analisa as propostas curriculares para vários estados brasileiros, nos mostra também como analisar e pensar estas propostas ao longo do tempo e mostra a nossa concepção de currículo escolar. O currículo de história é mais complexo do que falarmos simplesmente que ele é um apanhado de conteúdos. Há pessoas envolvidas na sua composição que o limita, há propostas? Sim, conteúdos também, há coerências e muitos equívocos, métodos e linhas de pensamentos, porém há a heterogeneidade de nossa população que limita a feitura de um currículo homogêneo, principalmente se falar na recepção desse currículo, e nesse ponto temos uma construção de uma problemática difícil de resolver que é a confusão entre fato/sujeito/tempo, ou seja, a própria feitura da história no momento da construção curricular e, sobretudo o que queremos com esse currículo, qual tipo de cidadão queremos com esse ensino.
    Não prevemos uma solução para esse difícil problema, somente queremos uma reflexão para que nós, envolvidos com a educação, possamos lutar mais, para uma melhora na qualidade de um ensino que temos em mãos, conhecer as intencionalidades dos currículos e percebermos as demandas de conhecimento do mundo estudantil hoje, é um pequeno e humilde caminho para tentarmos, talvez, com criatividade, trabalharmos, outro currículo, um que não está no papel, mas que com nossa experiência possa aparecer e se desenvolver mais no intelecto do que somente seguirmos uma cartilha determinada.
     Há na cultura escolar, cujo citamos acima, parte de nossa sociedade, esta a compõe e ao mesmo tempo aquela a influência, assim como influência à história do país, já que nossa tal "história" mostra sujeitos em suas produções culturais, econômicas e sociais. A cultura escolar tem regras e normas como em qualquer outra instituição e poder, podem manter a tradição, ou aplicar mudanças. Isso vale para a escola, que aos poucos nós habituamos a conviver como a instituição que forma nossa sociedade, se nós também acreditarmos que a sociedade também a influência a escola. Fatos estes que possibilita e limita a história e os currículos escolares. A escola e o ensino de história produzem algo no momento da transposição didática feita pelo professor, algo que as "sucessivas reformas escolares só arranham de leve" parafraseando Vinão Frago, esse é nosso pensamento sobre os currículos escolares.

Rosávio de Lima Silva
   

2 comentários:

  1. heteregenuidades,

    O QUÊ?????????????????????

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    1. Desculpe por não ter revisado o texto antes de postar foi um erro. Obrigado por indicar as partes que tem erro de português.

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