terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Análise de Livros Didáticos com a temática de Ásia e perpectivas de ensino em sala de aula

Introdução

    Para pensarmos na construção dos conteúdos do Livro Didático devemos olhar para os currículos escolares. A produção de um Livro Didático tem características do período que foi realizada, no qual devemos ter no horizonte algumas considerações para se analisar o conteúdo, assim como a síntese do padrão atual e as reformas que levaram a este modelo. Por mais que aja uma discussão na feitura de um Livro Didático a influência política ainda conta muito na sua construção, fato que ainda é notado.
    A autora Circe Bittencourt em seu trabalho “Livros Didáticos entre textos e imagens”, nos apresenta uma síntese da discussão sobre a reforma curricular na década de 1980, no qual, ocorreu uma mobilização política e social com o fim de trazer as reformas para mais perto da sociedade. Neste momento houve a criação da CENP, que buscava defender o ensino e estabelecer diretrizes para todas as áreas de conhecimento escolar. Decerto, nesta década e em parte da década de 1990, os livros didáticos privilegiaram os personagens e centraram-se na história deles. No caso do tema de Ásia, mais especificamente no oriente “médio” tratam o Islamismo a partir da vida de Maomé ou nos conflitos decorridos na segunda metade do século XX, personagens e conflitos políticos são sempre os destaques nessas épocas. Deixaram um imenso vácuo na história dos povos árabes, se compararmos os dois períodos históricos, fato que é o que mais percebido no âmbito acadêmico.
     A autora Claudia S. Ricci em suas pesquisas sobre o projeto de reforma nos conteúdos escolares, no texto “Da intenção ao gesto: quem é quem no ensino de história em São Paulo”, nos apresenta exigências aos professores de história para que estes se atualizem a partir de trabalhos acadêmicos. Acreditamos que esta análise que apresentaremos faça parte deste exercício. Defendemos, por mais que seja difícil, devido a realidade profissional do docente de 1° e 2° graus atualmente, que o professor deva executar no decorrer de sua vida profissional, o repensar, ou melhor, um ato de compreender as mudanças na história. Este texto se pauta não apenas na crítica do livro didático, mas sim em uma possível alternativa para seu uso, pois a utilização dele se baseia na forma como o professor emprega seu discurso aos alunos, tentando desconstruir assim, as ortodoxias empregadas a tanto tempo sobre a história dos árabes e do Islã.
    

     Temos consciência de que os conteúdos tratados nos livros podem nos levar a enxerguar uma construção de identidade nacional, que sofre alterações a partir dos governos e pelo espaço regional em que se encontra como dito no início desse texto. Logo, o livro tem um caráter multifacetado, que envolve o coletivo (autor, alunos, pais, professores, etc) com temas delimitados a ser estudados. Também pode ser um instrumento para que o pai saiba o que estão ensinando a seu filho, criando um dialogo dos pais com a educação. E por fim, o livro também é um produto editorial, sendo tratado como uma mercadoria, com padrões industriais, leva em conta o seu custo de produção, se vai ser consumido pelo mercado ou não e se terá uma aceitação dos docentes, muitos, acostumados com os currículos padronizados.
     Para avaliar e comprar os livros didáticos para o Estado, criaram a PNLD (Programa Nacional do Livro Didático). Após o ano 2000, se buscou um livro didático único, no qual levou a exclusão de certos temas, inclusão de outros e síntese de alguns. Os temas ligados à Ásia foram sintetizados ou debatidos com outros, sempre com viés nas crises e problemas que os árabes trazem em sua história, com tratamento, não só nesses conflitos, mas da cultura e do próprio povo árabe dentro de generalizações e jargões ocidentais. Partiremos deste viés para olhar como o ensino de história da Ásia chega aos estudantes brasileiros atualmente.

Quais são os livros tratados nesta analise?

    Neste item, delimitaremos o nosso objeto a alguns livros didáticos apenas, no qual mais a frente na analise buscaremos a conexão entre eles e os debates sobre História da Ásia feitos na academia. Assim, descreveremos apenas os livros que serão usados, seus autores, a editora e o ano que foram usados na educação brasileira.
    O primeiro é “História Geral e Brasil”, trata-se de um volume único que foi aprovado pela PNLEM (Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio) nos anos de 2009, 2010 e 2011, utilizados atualmente em algumas escolas públicas da região da Leste Cinco em São Paulo no Ensino Médio. Seu autor é José Geraldo Vinci de Moraes, no qual é doutor em História Social pela USP e professor de Metodologia de História da FFLCH-USP. O livro é da editora Atual, sendo este exemplar de 2005, estando em sua segunda edição em São Paulo. Seu conteúdo trata dos árabes em três capítulos: o primeiro denominado “As primeiras civilizações orientais”, apresentando a origem do povo árabe e de sua cultura, além de utilizar-se de seis mapas da região neste período e seis figuras ilustrativas, com o limite de 13 páginas; o segundo capítulo é “Os conflitos no Oriente Médio”, no qual apresenta os fatos decorridos nesta região durante a Guerra Fria, tem dois mapas e uma fotografia apenas, com limite de cinco páginas; e o terceiro e último chama-se “As tensões no Oriente Médio”, mostra os atuais problemas pós-guerra fria que a região enfrenta, com três fotografias em um limite de 14 páginas.
      O segundo livro didático é “História Geral”, da coleção objetivo, livro número 21, no qual tal coleção trabalha a História em dois volumes, um de História Geral e outro de História do Brasil, usado atualmente no Sistema de Método de Aprendizagem desta mesma Instituição, privada no caso, sendo usado tanto no ensino médio quanto no ensino fundamental. Foi desenvolvido no ano de 2006. Seus autores são José Jobson de Andrade Arruda, Francisco Alves da Silva, Ciro de Moura Ramos, e, Eva Turin. O autor José Jobson de Andrade Arruda é Doutor em História Econômica pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com experiência na área de História Moderna e Contemporânea, com ênfase na História Econômica. Já o autor Francisco Alves da Silva é diretor da área de Ciências Sociais e Comunicação da UNIP, sendo formado em Ciências Sociais. O autor Ciro de Moura Ramos é formado em História, atualmente é professor de História no Colégio e Curso Objetivo, assim como revisor crítico de alguns trabalhos/monografias da UNICAMP. A autora Eva Turin é formada em História e Filosofia, atualmente faz parte do grupo de estudos Espinosanos e estudos sobre o século XVII. O livro feito por esses autores tratam dos árabes em dois capítulos: o primeiro chamado “Alta Idade Média: Império Bizantino e Islão”, no qual retrata o contato dos árabes com os cristãos, sendo os últimos superiores aos árabes, se limita a três paginas e duas figuras, uma árabe e outra cristã; o segundo denomina-se “Os árabes e o Islão”, apresentando a origem e o desenvolvimento do povo e da cultura árabe, com seis imagens no limite de sete paginas.
      O terceiro livro didático é “História e vida integrada”, trata-se de um volume dedicado ao nono ano, foi aprovado para ser usado nos anos de 2011, 2012 e 2013, utilizados atualmente em algumas escolas públicas da região de São Miguel Paulista. Este livro está na sua quarta edição em São Paulo, datando de 2011, tendo seus direitos pertencentes à editora Ática. Seus autores são Nelson Piletti, Claudino Piletti e Thiago Tremonte. O autor Nelson Piletti é graduado em Filosofia, pedagogia e jornalismo, é mestre, doutor e livre docente em História, atualmente professor na Faculdade de Educação da USP, e ex-professor de História na rede publica de ensino do estado de São Paulo. Já o autor Claudino Piletti é graduado em Filosofia e pedagogia, professor de História e doutor em Educação pela Faculdade de Educação da USP. Por fim, Thiago Tremonte é graduado em História pela PUC-SP, mestre em História Social pela PUC-SP, graduado em Filosofia pela USP, e atualmente professor de História e Filosofia. Trata do Oriente Médio em um único capítulo denominado “Oriente Médio: uma guerra sem fim?”, no qual retratam os conflitos atuais desta região e os conflitos entre as etnias diferentes, delimitados em 10 páginas, treze fotografias e três mapas.
      O quarto livro didático é “História Global: Brasil e Geral”, analisados os volumes um e três desta coleção, sendo este manual do professor. Foi produzido em São Paulo, no ano de 2010, tendo seus direitos pertencentes à editora Saraiva. Seu autor é Gilberto Cotrim, licenciado em História pela USP, mestre em educação, arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, atualmente professor de História na rede particular de ensino e advogado. No volume um trata do Oriente Médio na unidade quatro, chamada de “Bizâncio, Islã e povos africanos”, no qual analisamos os capítulos “Império Bizantino” e “Mundo Islâmico”, no qual ambos tratam do contato da cultura árabe com a cultura crista, da origem dos conflitos entre ambos e da gênese do Islamismo e da cultura árabe, no qual a unidade é delimitada em 36 páginas com 27 imagens. No volume três trata do Oriente Médio no capítulo denominado “Independências afro-asiáticas e conflitos árabe-israelenses”, no qual apresentam, de maneira generalizada, estas regiões dentro do limite temporal do século XX, tem o limite de 26 páginas e treze imagens.
      O último livro didático é “Viver a História”, direcionado ao ensino fundamental, no qual este livro analisado é para sexta série. Este livro tem seus direitos pertencentes à editora Scipione, produzido em 2002. Seu autor é Cláudio Vicentino, Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela USP, e pós-graduado em História pela Universidade de Brasília, também é professor de cursos pré-vestibulares e de ensino médio, assim como autor de várias obras didáticas e paradidáticas para o ensino fundamental e médio. Neste livro, têm o Oriente Médio em um capítulo denominado “As civilizações orientais: os impérios bizantino e árabe”, no qual realiza um balanço inicialmente sobre o que se pensa dos árabes, depois apresenta o surgimento e desenvolvimento da civilização árabe em conjunto com o cristianismo, por fim, trabalha algumas especificidades dos árabes e deixa curiosidades aos alunos pesquisarem. Tem o limite de 28 páginas e 30 imagens.
     Portanto, conhecendo os livros didáticos no qual se baseia a análise, e concluindo que todos os autores citados são reconhecidos academicamente procuraremos esclarecer os discursos e conteúdos apresentados aos alunos, e a forma como são tratados neles, fundamentando a analise nas bibliografias trabalhadas em sala de aula e nas leituras especificas sobre livros Didáticos e seus discursos.

Análise do conteúdo e discursos no Livro Didático

       Pensando na síntese dos Livros apresentados acima e nos conteúdos que são ensinados nas escolas brasileiras a partir deles, sobre História da Ásia, há um duplo viés a ser visto: o primeiro é o surgimento do Islamismo, sempre ligado ao debate com o cristianismo, lecionados no ensino fundamental, características notadas nos livros “Viver a História”, “História Global: Brasil e Geral” volume 1, e “História Geral” da Coleção Objetivo; o segundo são os conflitos da segunda metade do século XX, ensinados ao ensino fundamental e médio a partir do nacionalismo e da religião exacerbada sobre árabes, que não tem uma identidade a partir de uma postura cultural e política, mas sim religiosa, pois podemos pensar que quando falamos em cultura islâmica o termo é mais amplo que a religião, porém nos livros didáticos Islã é sempre sinônimo de religião, sendo presentes essas características nos livros “História Global: Brasil e Geral” volume 3, “História e vida integrada” e “História Geral e Brasil”.
      Em uma síntese geral dos conteúdos tratados nos livros didáticos que nos servem de fontes primária para este trabalho, e partindo das generalizações encontradas nelas, podemos sintetizar os temas dos “árabes” e “Ásia”, agora não individualmente, mas pensando todos dos livros didáticos consultados, demonstra uma limitação no que tange à História dos árabes. Os mesmos estão em conteúdos ligados ao cristianismo, quando retratados em suas origens, são sempre pequenos trechos com generalizações e poucas especificidades regionais, só nos livros de ensino médio é que algumas regiões são debatidas (Egito, Líbano, Israel, Palestina, Afeganistão, Iraque, Arábia Saudita, Turquia, estes são os mais recorrentes e encontrados nos livros analisados). O tema chega a uma divisão de capítulo e nunca ultrapassa um capítulo inteiro, muito menos dois, distante do que é visto em relação à história da Grécia ou de Roma. Todos apresentam fotografias e imagens que parecem caricaturar os árabes como bárbaros, terroristas, inferiores as ocidentais ou extremamente ricos. O termo árabe é sempre tratado dentro de generalizações e jargões ocidentais, no qual os temas são separados por série. As origens do Islamismo são trabalhadas no ensino fundamental, já os problemas da segunda metade do século XX do Oriente Médio são ensinados no ensino médio.
     Partiremos do ensino fundamental e do discurso que há em seu conteúdo, mais a frente discutirá ensino médio.
     Os temas “árabes” e “Ásia” são tratados com simplicidade, poucas especificidades nesses, e muitas generalizações ocidentais. A discussão que é transpassada as crianças indica um árabe fanático por sua religião, mostra um “Choque entre as civilizações” tal como o autor Huntington pontua em seu texto a partir da diferença entre o civilizado (cristão) e o não-civilizado (árabe). O Oriente Médio Antigo é tratado sobre imagens criadas pelos ocidentais, no qual o próprio livro didático direcionado a este público traz imagens da odalisca (mulher sedutora), do sultão (homem rico), do Harém. Em síntese, de um lugar exótico e perigoso com famosas pinturas de Delacroix.
    Pautado nas características descritas, podemos notar um discurso nos livros didáticos do ensino fundamental e no preparatório para vestibular o que nos descreve a autora Karen Armstrong, em seu texto “Uma história de Deus”, mostrando que o Islamismo é apresentado através de comparações com outras religiões, mas no livro didático traz a figura de Maomé visto como um impostor, uma pessoa que se encontrava no lugar certo e na hora certa para fundar e moldar uma religião de acordo com a necessidade social. Discurso este encontrado no Livro Didático da coleção Objetivo, número 21, chamado “História Geral”. Tanto a autora como grande parte dos livros didáticos, tem a intenção de descrever como a religião foi sentida pela população árabe e cristã, mas no livro didático essa questão é mais sucinta dando a entender que Maomé é tratado dentro de uma visão linear da história árabe-muçulmana, nos seguintes parâmetros: nascimento de Maomé, apogeu da religião, morte de Maomé, e conflitos sucessivos entre cristãos e árabes. O profeta é mais visto como um líder político do que religioso.
     No livro didático “História Global” (volume 1), o Islã é trabalhado dentro da expansão geográfica e étnica, a religião é vista como a história do próprio povo árabe. Este modo de tratar o tema é similar nos demais livros didáticos analisados. Estes discursos presentes nos livros estão na forma da abordagem de Armstrong, estudando as origens do Islã vendo a história árabe sem se desvincular do debate religioso. Uma critica construída a partir da autora aos livros didáticos consultados, se encontra na religião ser um parâmetro para a civilização, pois a leitura destes livros faz com que reparemos no discurso de um “manual”, já que são superficiais e ficam nos limites temporais (nascimento e morte) sem uma progressão na história, além de misturar a religião com a história política como se fossem algo único e sem confrontamentos quando em alguns momentos destacam mais o papel político de Maomé e em outros mais o religioso separadamente.
     Assim, a questão não é adotar ou não essa periodização tradicional, mas problematiza-la para o aluno entender o caminhar da história, que se baseia no equilíbrio entre as continuidades e as rupturas, ensinando os alunos a se posicionarem no espaço-tempo da história. Os livros didáticos, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio, demonstram a queda de uma dinastia e a substituição por outra, como uma história positivista, padrão este notado na maioria dos livros didáticos.
     Essa construção do discurso se liga ao que o autor Jack Goody chamou em seu trabalho “O roubo da História”, de “eurocentrismo x asiacentrismo”. Dessa forma, verificamos que a história asiática é tratada sobre a dominação do Ocidente sobre o Oriente. Assim, nestes livros dos anos 2000, o passado do mundo árabe é referenciado de acordo com o passado europeu, trabalhados a partir da divergência entre a Europa e Ásia em conflitos religiosos, a história desta última só aparece realmente em relação a história da primeira.
     Como quebrar esse paradigma construído nas crianças de que a história do mundo ocidental é a valida em detrimento as outras?
     Em perseguição a esta resposta, notamos que a construção de conceitos e períodos históricos em todos os livros analisados está na presença unânime do tempo linear e continuo. Os europeus trazem as suas formas de interpretação do mundo, tratado a partir da sua expansão geográfica e religiosa, os livros de ensino fundamental consultados compram esse discurso como sendo o mais apropriado para os estudos de nossa cultura em relação ao conhecimento da cultura árabe, visto que nossa história (Brasil) só se deu a partir da própria relação que tivemos com a Europa.
     Mesmo que com conteúdos simplificados e generalizados, o professor é e pode ser capaz de construir em seu aluno a vertente de que existem outras culturas diferentes e elas devem ser respeitadas e estudadas tendo como referencial a sua própria configuração, e não a partir do olhar ocidental como é feito.
     Outro problema a ser destrinchado é a história do árabe ser vinculada com a do Islã, muito falado nos livros, pois só pelo fato de falarem a língua árabe todos são colocados como um todo homogêneo, e nos livros o Islã só tem duas divisões, Xiitas e Sunitas, como se fosse algo sem grandes complexidades. Debater com os alunos o conceito do “ser árabe” através do tempo é fundamental para que estes compreendam que a identidade árabe se transformou no decorrer das épocas, além de se dividir em muitas etnias depois, no qual se depara com a atual configuração geográfica e etnográfica do Oriente Médio, fato este não presente nos livros didáticos.
      Neste momento, dentro do debate do autor Edward W. Said, em sua obra “Orientalismo”, vemos que é possível colocar os problemas raciais, lingüísticos e étnicos com os alunos do ensino fundamental e médio. Pois, se mostrar a eles que existe uma cultura oriental, e esta não é inferior e nem melhor do que a atual cultura do aluno, grande avanço vamos ter já nas bases dos ensinos. Quando isso for trabalhado, talvez não seja tão absorvido o estereotipado árabe das grandes mídias, no momento em que essa criança crescer e ser bombardeada por imagens orientalistas, terá já trabalhado em sua mente a vinculação do discurso construído sobre eles.
    Grande parte do discurso que os alunos do ensino fundamental aprendem nos livros didáticos vai de encontro ao discurso de Said. A conexão dos conteúdos dos livros didáticos com o autor em questão se dá justamente no fato mais explorado nos dias atuais, a religião. Oriente é tratado como uma construção do Ocidente, dentro das imagens e de um sentimento de inferioridade. Por exemplo, o Islamismo no livro didático “História e vida integrada” é tratado junto com as Cruzadas, mostrando a afirmação de uma cultura sobre a outra. O tema é trabalhado através do referencial católico, deixando uma mensagem de defensores do cristianismo, na luta contra bárbaros que tomaram a terra Santa Cristã, como se essa terra também não fossem dos árabes. Temos aqui, já o “choque das religiões” em que a intolerância ao outro “Deus” estava em andamento, tendo os cristãos a iluminação divina em trazer as ovelhas desgarradas de volta à luz, ou seja, o discurso de que o cristianismo é a religião correta e as demais deveriam deixar de existir.
    Uma alternativa para se trabalhar o Oriente com os alunos do ensino fundamental é demonstrar os mecanismos imperialistas de fabricação da cultura árabe, que é forjado no pensamento colonial ocidental desde fins do século XVII até nossos dias. Mostrar que a Cultura do Oriente não é “ruim ou bárbara” e sim, existem outras formas dos povos viverem e coexistirem. O autor Said nos apresentou que o Orientalismo é como um espelho no qual o Ocidente contempla além de sua própria imagem, sua própria superioridade em relação ao Oriente. Se tentarmos não mais reproduzir esse discurso seria uma boa forma de se analisar e de se repensar os livros didáticos.
     Os livros didáticos do ensino fundamental apresentam um discurso estático, mostrando que: “tudo que não se enquadra em minha cultura é o ‘outro”, no qual reproduzimos que o Oriente só modifica seu discurso através de decisões políticas e religiosas, fato atrasado e desvinculado das artes e da cultura moderna. Como se, nós, ocidentais também não fizéssemos isso, a todo instante também em nossa cultura, fazemos o que todos os “outros” também fazem, sem sermos considerados atrasados. A famosa justificação do ex-presidente americano George H. Bush quando classificou de “nova cruzada contra os árabes”, à guerra contra o terror, após os ataques contra as torres gêmeas em 2001 foi um claro exemplo da reprodução dos discursos orientalistas.
      As imagens dos ataques terroristas foram muito exploradas nos livros didáticos dos anos 2000, ou seja, trata-se de se criar um discurso imaginário construído no aluno no ensino fundamental e intensificado nos ensino médio, e ainda mais, explorado pela mídia em geral. Este aluno está a todo o momento sendo bombardeado por imagens, “são terroristas, são terroristas, eles, os árabes”. Mas perguntamos: todos os árabes? Está certo que não, mas temos e precisamos a todo instante desconstruir isso.
     Portanto, são construídos nesses alunos os seguintes conceitos: a inferioridade dos países árabes, assim como a decadência dos estados governados pelo Islã, mostrando o árabe/muçulmano como um fanático religioso incapaz de agir com racionalidade.
     Partiremos aos conteúdos do ensino médio. Estes trazem os debates políticos mais aprofundados e atuais. Trabalham os temas da identidade nacional do Estado Nação se unindo por especificidades culturais, criando os problemas atuais que o Oriente Médio sofre nos dias de hoje.
     Os temas são tratados com o estranhamento entre as culturas, como apresenta Edward Said em seu texto “O Choque de Ignorâncias”. As diferenças culturais, lingüísticas e religiosas são postas em debate com os alunos do ensino médio brasileiro. Na questão religiosa é aprofundado o problema, pois como nos mostra Said, tudo se resume a este fator fundamental na vida das pessoas, já que não é qualquer religião, mas, uma das maiores do mundo. Também ocorre a pretensão do discurso do livro didático de mostrar a cultura ocidental como uma forma de civilização universal, dentro do dilema da globalização, que segundo Said, está na imposição de uma cultura ocidental em uma nova forma de imperialismo e na exaustão do modelo fundamental do ocidente.
      No livro didático “História Global”, o Ocidente é tratado a partir da vertente do declínio, apresentando o desenvolvimento dos povos não ocidentais dentro da redistribuição do produto econômico mundial, ainda que com muitos problemas sociais. Na unidade três desta coleção, há um grande enfoque nos conflitos árabe-israelenses, porém, com foco na questão militar. Em síntese, a oposição ocorre entre as civilizações e a ampliação do Estado-Nação é apresentando na teoria do “Choque de Civilizações” de Huntington.
     O livro didático “História Geral e Brasil” apresenta os conflitos do Oriente médio na segunda metade do século XX, com os parâmetros de transformação do Ocidente e do Islã em duas entidades diferentes, com bases no discurso do fardo do americano trazer a paz para a região.
     Logo, podemos debater esse conteúdo com o autor Huntington, em seu trabalho já citado ácima. Este autor define civilização como um grande agrupamento cultural de pessoas a partir de múltiplas identidades culturais, no qual você passa a ver seu inimigo por diferenças culturais. Portanto, as civilizações se definem pela religião, as diferenças culturais entre as civilizações levam aos conflitos étnicos religiosos. O autor Huntington se baseia nos estudos de Lewis, que diz:

“São apenas duas as civilizações que podem se dizer universais, e são a civilização cristã e islâmica. Que se assemelham porque não são geradas por uma etnia mas com base em uma religião e porque reivindicam uma universalidade e uma exclusividade. O conflito entre a civilização cristã e a civilização islâmica não nasceu de suas diferenças, mas de suas semelhanças. Quando existem duas religiões semelhantes, historicamente contemporâneas e geograficamente adjacentes que reivindicam a mesma coisa, o conflito é inevitável.”

     Assim, esta citação resume as idéias que se integram ao ensino médio brasileiro, no qual o problema central é o Islã, além das civilizações diferentes cujos membros estão convencidos da superioridade de sua cultura e obcecados pela perda de sua potência, trazendo à tona um sentimento de insatisfação com o Ocidente, que sempre busca converter os orientais.

Em todos os livros consultados há a presença dos estereótipos dos árabes, no qual as imagens mostram os árabes em explosões, guerras, no deserto, árabes demonstrando ausência de sentimentos (como se não tivessem humanidade), visto como terrorista, a partir de pinturas cristãs, etc. Logo, a imagem que se passa aos alunos se constrói sobre as manipulações de discursos, sendo a função do professor “desnaturalizar ou desmistificar” este estereótipo criado. Não indo de encontro com a lógica de Huntington, de que uma cultura declina para surgir outra, mas mostrar dentro da cultura desta sociedade árabe seu funcionamento, mecanismos estes ausente nos livros didáticos consultados.
     Devemos trabalhar contra o conceito que os livros didáticos trazem, pois como dito no início deste texto, há todo um entorno complexo na composição dos livros, e sempre somos influenciados por eles, pois nunca desconfiamos de seus autores, pessoas tão bem gabaritadas, estes poderes estão além do simples professor. Vemos ano a ano o ensino mercado crescer sem fronteiras e as lucrativas vendas de livros didáticos nesse contexto crescerem cada vez mais.
    O enraizamento do conceito de Islamofobia (árabe visto como terrorista) e o anti-islamismo ocidental devem ser muito bem tratados pelo profissional da educação. Uma via para se trabalhar o fato é a questão do imigrante não assimilável, pois podemos mostrar como o cristianismo tratou (e trata) a cultura árabe, no fundamento do “ou se integra ou não é aceito”. A realidade histórica ainda é a mesma, os árabes continuam sendo repreendidos pelos europeus, aqueles sendo culpados desde sempre pelas crises econômicas e sociais que ocorrem, discurso este que os livros didáticos adotam e ensinam aos jovens.

Conclusão

     Mais do que tentar enxergar conflitos em contextos amplos e distantes dos alunos tentaremos pensar que a “História é vida, e esta é variedade e diferença”, por isso se apegar nas experiências dos alunos para fazer com que eles compreendam a importância da história deles próprios na feitura da História. Os conhecimentos que eles têm do oriente são importantes e devem ser questionados para melhor percebermos o quanto está engendrado o discurso orientalista em nossa sociedade ocidental. Portanto, muito mais do que percebermos que nossos jovens estão aprendendo algo que não condiz com a realidade, visto que não estamos falando de verdades ou mentiras, mas sim de construção de discursos, talvez o ideal fosse refletir sobre os conteúdos didáticos e trabalhar algo diferente em cima deles mesmo. O livro didático é algo configurado a partir de saberes acadêmicos e “se a escola é responsável pelo aquilo que ele enuncia, é o saber acadêmico que legitima o saber ensinado” .
     Só quem terá acesso a uma universidade será capaz de conhecer o outro lado da história? Talvez, mas se o profissional da educação estiver alinhado com os saberes acadêmicos poderá aplicá-los na base do conhecimento e desconstruir o discurso dos livros didáticos em relação ao oriente, o livro didático pode ser um apoio, mas não o definidor do ensino, o saber do docente tem que está em primeiro lugar, um livro de categoria média na mão de um bom professor pode ser um excelente meio de comunicação, o saber docente está além livro, agora um bom livro, com todas as correções feitas dos discursos historiográficos nas mãos de um péssimo professor com uma relação conflituosa com os alunos passa como diz Fusari a ser um “pseudodocente” “... o livro acaba sendo o ‘professor’, o que não deve ocorrer. (...)
     Há uma construção ideológica nos livros didáticos, eles falam algo que é imposto por algum fim político. Se os árabes são pintados como inimigos e bárbaros nos livros é porque isso tem uma finalidade, mas o debate contra essa postura já é travado a um bom tempo, mesmo que se em poucas universidades tenha a disciplina da História da Ásia e os livros didáticos tratarem o tema como secundário ou menor em detrimento a outros, o professor e os pais, assim como a comunidade estudantil tem o dever de se contrapor as imposições ocidentais de ensino.
     O “Choque de civilizações” de Huntington foi modificado para “Choque de Ignorâncias” por Said justamente por perceber que a insistência do ódio premeditado posta em trincheiras intransponíveis no lado ocidental só faz aumentar o discurso orientalista na mente ocidental. A prova de que esse discurso se perpetua é a reprodução a cada nova geração de estudantes do ensino fundamental e médio nas escolas do Brasil do orientalismo moderno. Em um país que se diz multiético e acolhedor de todas as raças é percebido o alinhamento com o que tem de mais conservador em matéria de ensino da história pautada na do europeu e do americano.


Danylo de Almeida Ferrenha e Rosávio de Lima Silva

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