domingo, 21 de agosto de 2011

Escola é conservação ou transformação?


Para começar essa discussão é importante ressaltar a minha opinião. Penso que nessas questões hoje a escola exerce um papel ambíguo, conserva e ao mesmo tempo transforma, porém para embasar meu pensamento utilizarei as teorias críticas discutidas no texto de Dermeval Saviane, "Escola e Democracia", visto que essas teorias críticas denunciam uma escolarização atrasada e conservadora de uma lógica de influencia de poder, e principalmente um poder de estado.
    Porque se falam teorias críticas? Segundo Saviane, há uma separação, críticas e não críticas, estas últimas alguns autores trabalha com a denominação de teorias ingênuas, Libâneo fala de liberais, mas no fundo falam a mesma coisa, (escola nova, escola tradicional, escola tecnicista) tem o mesmo discurso para os críticos.
    São teorias pedagógicas que desvinculam de um contexto histórico, como se a escola estivesse autônoma e não marcada por fenômenos econômicos, culturais e sociais, por isso compartilho das teorias críticas, pois estas, vão sim, inserir as escolas em um potencial de historicidade concreta, ela não é autônoma, está na economia, no social e no cultural.
    Se pensarmos no início do ensino escolar, o que será que estava previsto? Um ensino laico, público e etc. é o que mais se falam nos níveis governamentais, mas creio que está mais perto de um conhecimento liberal, uma construção de uma sociedade burguesa, e a escola construindo uma sociedade aberta para os desejos do capital nacional e internacional. O pensamento era de desenvolvimento individual dos cidadãos, cada um em seu próprio ritmo que desembocaria em um desenvolvimento social, em uma lógica do pensamento liberal, todavia isto não está presente assim, tão natural como se fosse uma escola que não questionasse a origem de cada um e de sua posição social nesse mundo.
   

    É nessa leitura liberal que é introduzida as teorias críticas. Dependendo da origem socioeconômico de cada individuo há diferenças na trajetória escolar, a escola não está à deriva destas condições, contudo, podemos perceber que ela não cumpre o que os liberais propuseram.
    Saviane apresenta alguns autores que pode nos auxiliar a retratar a escola hoje. Se colocarmos o ponto de vista dos críticos-reprodutivistas, tal como Bourdieu e Passeron, pode-se enxergar uma escola no viés econômico, a escola não promove a equalização social, apenas reproduz o que a sociedade demanda, ou seja, se formos bastante radicais, estamos falando de trabalhadores e cidadãos para apertar o botão no dia de eleições para legitimar nossos queridos representantes nas esferas políticas.
    Baudelot e Establet falam de uma escola dualista à medida que existe uma escola para o pobre e para o rico, atualmente nosso sistema público de ensino e as redes particulares de educação nos dão bem esse exemplo. Esses autores não vêem saída para escola, à mesma reproduz o ensino como ele é, a exclusão para os pobres e a inclusão para os mais abastados economicamente.
    Althusser, segundo Saviane desenvolveu um termo para bem pensarmos essa dualidade, O Aparelho Ideológico do Estado, este autor marxista e um famoso estruturalista francês, tem nesse seu pensamento uma tese central, ele parte do mesmo principio de Marx, o estudo das sociedades de classes, como que nos dias de hoje e sempre presente na história da humanidade, a desigualdade social está inserida, a presença de exclusão social é nítida no passado e no mundo atual. Althusser pensa a escola dentro deste contexto. Existe um aparelho repressor, um aparelho controlado pelo estado, um estado capitalista que mantém esse aparelho repressor, uma força de ação e de coerção contra os movimentos sociais e há presença de ideologia na educação, esta sendo a base dos movimentos de contestação, coincidência ou não, é muito presente em nossa esfera política atual.
    Pensando sobre a escola, Althusser fala de um convencimento psicológico que está explícito nos aparelhos, ou seja, a questão da Igreja, como esta auxilia a manter a ordem, uma espécie de ajuda na aceitação do status cool, uma ideologia para o grupo dominante manter o dominado, segundo este autor a escola também faz parte deste programa.
    A escola trabalha com conteúdos curriculares impostos em uma operação de poder, sobre isso há uma discussão muito grande nos anos 80. Podemos perceber essa discussão na importância dos livros didáticos para os aparelhos do estado como uma venda da sociedade ideologicamente. Idéias de igualdade, justiça,  etc., são discursos vendidos dentro da escola para um determinado fim, pontos estes que são denunciados por Althusser, um pensador francês. Saviane diz que este autor é também critico-reprodutivista à medida que mostra a escola como ela é na sociedade sem demonstrar as grandes rupturas para um aplicação futura dentro do sistema. Podemos relacionar estas questões com exemplos de muitos estudantes graduandos na educação ou áreas afins hoje, que na faculdade fazem discursos aclamados dos problemas, mas as soluções críticas para com esses problemas estão longe de serem aplicadas, justamente por viverem em um sistema capitalista e o socialismo utópico que pregam não convencer alunos de escolas públicas que querem no mínimo ter um emprego para mudar sua realidade pobre momentânea.
    Neste sentido, Saviane nos mostra que quer pensar em um avanço, pois quer ir além dos críticos-reprodutivistas, podemos questionar, será que não existe nenhum espaço de divergência e resistência? O autor quer mudar justamente isso. É nesse ponto nevrálgico que penso os dias atuais, porque há espaços sim, pois houve uma evolução, temos algumas inclusões de multiculturalismo e discussões sobre etnias, respeito ao excluídos, a aprovação da lei de ensino de História da África e do afro descendentes, assim como o ensino Indígena, são demonstrações disso. A mudança é lenta, mas é percebida, o que não podemos é entregar os pontos da luta.
    Portela, diz que isso tudo é um otimismo ingênuo dos tradicionalistas e um pessimismo ingênuo dos críticos quando só fazem críticas sem perspectivas de mudanças, tem que haver, ao meu entender, e já exposto acima, um otimismo crítico. Se pensarmos que com a evolução destes pensamentos em nossas discussões a escola transforma e conserva ao mesmo tempo estamos questionando o meio que trabalhamos, o professor é ferramenta fundamental para seguir fazendo essa mudança ou conservando o que já está a muito tempo sendo passado por gerações em uma tradição reprodutora. Temos que entender que a escola sozinha não transforma a sociedade, mas é um caminho.
    Pode existir uma contradição na junção das duas teorias, mas acho que a escola é isso mesmo, ela tem transformação e reprodução, ela é contraditória, pois há seres humanos na educação. Com toda a certeza, tem um aspecto de transformação possível desde que um trabalho em conjunto seja feito neste meio. Podemos acreditar que aos poucos, a educação escolar organizada com outras instâncias políticas pode mudar sim a sociedade.
    Existem pensadores que tem perspectivas diferentes dentro do papel da escola nas teorias críticas, eles questionam os reprodutivistas, pois se há uma crítica o que fazer com ela? Pensar é diferente de agir. Se o papel da escola é desenvolver o pensamento crítico como muitos jovens professores tanto enfatizam, o que fazer com essa crítica? Se não houver uma mudança radical na sociedade não adianta a crítica, tem que haver um compromisso com um projeto maior dentro da sociedade.
    Portanto, se pensarmos na trajetória da educação no Brasil que nasce com uma pedagogia humanista tradicional, desde o século XVI até os anos 30 do século XX (muitos estendem até os dias de hoje), um tecnicismo com o militares, e presente nos cursinhos vestibulares em que fabricamos robôs, mestres em acertar questões. Temos também os escola-novistas nos anos 40 e nesse tempo todo, às vezes com mais forças e em outras com menos, os críticos sempre presentes, há uma amostra de transformações e conservações na escola em sua história. Com a redemocratização da política brasileira, um momento para a disseminação das teorias críticas, presença nos cursos de pós-graduações e de formações de professores, um ganho para a revolução no ensino, porém nos anos 90 há um refluxo desse avanço, há um crescimento de visões neoliberais de trabalho e diminuição da prática de conhecimento humanista.
    Percebo que para Saviane, com relação ao ensino especificamente, há uma discussão da construção ideológica nos currículos, sobretudo relacionado às estratégias pedagógicas de disseminação dos saberes. Neste sentido propõe ferramentas de construção contra-ideológicas a fim de facultar a libertação dos indivíduos, sobretudo aqueles que compõem as classes operárias e campesinas. Algo que nos dias atuais existe e ao mesmo tempo falta, sinais de uma sociedade que discute pouco os problemas da educação ou discute, mas não vê soluções para mudar a cultura presente dentro das escolas.

Rosávio de Lima Silva, História.

2 comentários:

  1. Fico imaginando uma professorinha do sertão nordestino sem um puto no bolso maquinando, maquiavelicamente, de que maneira irá introduzir nas mentes dos alunos a ideologia burguesa

    É tanta merda nessa pedagogia moderna...

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  2. Ideologia burguesa? Não entendi onde tem ideologia burguesa no texto?

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