terça-feira, 29 de abril de 2014

Os limites da nobreza aristocrática na Pólis Arcaica grega nos textos de Homero.

 Para pensarmos esta questão, primeiro temos que tentar nos situarmos historicamente, mas com certos problemas visto que estamos lidando com fontes criadas por um autor que supostamente não existira, ou há uma invenção tradicional criadora de Homero, mas a preocupação é descobrir de que época são os textos Homéricos para melhor pensarmos a Pólis arcaica.
   Sobre as duas obras que permeiam nossa discussão, Ilíada (Canto II) e Odisséia (Canto VIII), alguns autores como Finley, grande historiador helenístico (que estuda os gregos), aceita a tese de que as histórias contadas nas literaturas passaram na época micênica, X e IX a.C, e outros pensam no século VIII a.C (Período popularmente conhecido como Homérico). Temos, também, aqueles que defendem as tradições dos aedos, poetas ligados a corte, com suas tradições orais que variam nas datações e podem ter temporalidades diferentes, difíceis de dar uma data exata. Mas, segundo Trabuslsi, historiador de temas gregos, as explicações estão sem definições que deixa margem de escolha para o historiador ou estudioso da área situar individualmente, apesar de grande parte de especialistas atentarem para o século VIII a.C e inicio do VII como sendo o ponto comum da época Homérica, mas nada dá a certeza de que as narrativas contidas nos poemas Homéricos sejam dessa data.
    Possamos pensar nessas últimas datações e não entrar nesse complexo debate, pois estas são justamente o ponto em que há um ambiente para uma procura de terras novas, causa da colonização arcaica e da definição de sua aristocracia fundiária. As buscas de novas terras, ou colônias, são fatores relevantes para pensarmos o mundo Homérico.
    Com tradição dos aedos, podemos dizer que já existia uma linguagem consolidada na Grécia arcaica. Existem tradições de festivais literários em que esses poetas competiam, ou seja, esses poetas se ouviam, copiavam-se mutuamente e se comunicavam uns com os outros. Os anos de 800, 750, 650 a.C, período em que a Ilíada e a Odisséia estão se consolidando nas tradições dos cantores e tem nestes, a divulgação das obras do grande poeta Homero.   
  

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Suetônio

          
       Caio Suetônio Tranqüilo no ano 69 d.C e morreu em 140 d.C, foi um dos escritores mais lidos do seu tempo, porém, pouco chegou até nossos dias. “As vidas dos césares” são um pouco do que restou de seu vasto trabalho, na qual se inclui tratados sobre gramáticos e retóricos ilustres, embora muitas destas obras não tenham autenticidade comprovada, esse material constitui uma rica fonte de pesquisa. A maior parte desses trabalhos realizou-se quando Suetônio perdeu seu cargo como diretor dos Arquivos e teve que se afastar da corte por ordem do imperador Adriano, por seu suposto envolvimento com a imperatriz (Conforme o prólogo na edição espanhola, 1985)
            Em “As vidas dos doze césares” Suetônio narra de maneira bem particular a vidas dos imperadores, não só os feitos políticos, mas suas vidas públicas são devassadas com ironia, sarcasmo e escárnio. Contudo, a obra, delineia para além dos costumes, problemas inerentes à expansão imperial romana. Caio Júlio César, essa importante personagem da história romana teve sua vida narrada no primeiro capítulo, e essa narrativa tenta ater-se aos fatos que, nem sempre verificáveis, foram manipulados por Suetônio afim de, reconstruir os principais momentos da vida de César, até sua morte a punhaladas, por meio de uma grande conspiração. Apesar dos motivos expostos para explicar os motivos que culminaram com a morte de César, não esta claro que tenham sido os mais importantes, apesar da gravidade, como as acusações de arrogância e pretensões de tornar-se rei.
Mesmo com o prestígio conquistado por seu êxito militar, como foi possível que, César não tenha se tornado de fato, imperador? Se ele possuía tantos aliados, prestígio e descendia de família nobre? Talvez ele não tivesse aliados suficientes e a situação de discórdia com o Senado chegado ao limite. Vejamos possíveis explicações.
1- Com a morte do ditador Sila, instaurou-se em Roma uma luta pelo poder, e Júlio César aproveitou todos os meios possíveis, inclusive manipular as tensões sociais que havia nas colônias latinas, em favor próprio. Suas ações políticas eram sempre paralelas, buscava apoio dos tribunos da plebe, e desafiava seus adversários tentando diminuí-los em autoridade e poder:

 “Conquistado o poder do povo, conseguiu por intermédio dos tribunos e graças a um plebiscito, lhe fosse dada a província do Egito. O momento lhe parecia favorável para obter um comando extraordinário, em virtude da expulsão do rei pelos habitantes de Alexandria, a cujo soberano o Senado concedera o título de aliado e amigo [...] A fim de conseguir o enfraquecimento da autoridade dos seus adversários, por todos os meios possíveis, reergueu os troféus de Caio Mário conquistados sobre Jugurta [...] derrubados outrora por Sila” (Suetônio, séc. I d.C, p. 12)    
           
            2- O suborno, a mobilidade social e as concessões de terra eram moedas de barganha política, e essa última era o grande trunfo para abocanhar o apoio do povo, que obtinha alguns benefícios em função das conquistas, mesmo que poucos; os gastos com obras públicas, divertimentos e aumento do salário das legiões foram possíveis com o êxito militar de César, principalmente nas Gálias, após as guerras civis, o que o proporcionava poder de negociação:
Deu a cada um dos seus veteranos [...] vinte quatro mil sestércios. Concedeu-lhes, também, terras [...] Distribuiu ao povo, além de dez alqueires de trigo e outras tantas libras de azeite, trezentos sestércios por cabeça, em cumprimento de promessa antiga [...] Barateou o aluguel das casas [...]” (Suetônio, séc. I d.C, p.30)   
           
            3-As ditas pretensões de César tornar-se rei são evidenciadas pelas acusações de seus adversários, fosse pela sua postura, suas atitudes ou fosse por suas palavras:

[...] Atos outros e outras palavras suas forçaram-nos a crer que tivesse abusado do poder e merecido a morte. Pois, não somente aceitou honras excessivas, mas, ainda, o consulado contínuo, a ditadura perpétua e a prefeitura de polícia, sem contar o prenome de ‘Imperator’ e o sobrenome de ‘Pai da Pátria’[...] Deixou que lhe concedessem privilégios superiores as grandezas humanas: uma estátua de ouro diante da Cúria e outra diante do tribunal [...] templos, altares e estátuas ao lado das dos deuses [...]” (Suetônio, séc. I d.C, p. 51)
           
Esses pontos delineiam a força política de César, contudo essa força não foi suficiente para enfrentar o Senado, pois este exercia um forte controle dos processos políticos, e algumas das reformas promovidas por César não estavam em acordo com o Senado. As artimanhas políticas e o seu gênio militar não foram suficientes para mediar os conflitos atrelados às guerras e à expansão de Roma.
Fatores políticos e econômicos são interdependentes quando se olha para o tempo de César, em que a oligarquia senatorial sempre trabalhou para a manutenção dos seus privilégios e postos de poder. César fez parte desse grupo social, acumulou poderes demais, mas nunca chegou a exercer de fato o poder absoluto, pois, não conseguiu controlar os senadores, e pior, atraiu deles por querer estar acima deles.
A expansão propiciou o enriquecimento e a transformação da economia romana, o crescimento das cidades e fluxo enorme de dinheiro para Roma, por meio das várias formas de tributação, conforme a ocasião:
Após a conquista, Roma determinou, às regiões que tomara dos púnicos, o pagamento de um tributo em espécie, arrecadando, anualmente, um décimo da produção de trigo- principal produto da ilha (Sicília) [...] o Estado romano não arrecadava diretamente o tributo, mas adjudicava o direito de cobrança a particulares. Esse sistema [...] levaria ao surgimento de um grupo social de grande importância nas lutas sociais do fim da república- os publicanos [...] Além do décimo da colheita, Roma arrecadava, por vezes, uma segunda décima parte (altera decima), para suprir necessidades específicas do exército ou da cidade, ou fazia requisições extraordinárias (frumentum imperatum), pagas a preços abaixo do mercado [...]” (Guarinello, p. 64, 1987).


Guarinello também cita Tito Lívio e Cícero Sobre o papel dos publicanos na espoliação das populações submetidas, e essas ações eram toleradas pelos governadores romanos, que cumpriam sua parte controlando a justiça e o poder militar. A aristocracia do senado via no cargo de governador (de província) “a possibilidade de aumentar extraordinariamente suas riquezas” (Guarinello, p. 66, 1987).
César estava inserido nesse processo turbulento de conquistas e expansão romana, e tentou como outros, controlar Roma a partir de suas ambições pessoais, contudo esbarrou contra muitos interesses diferentes dos seus e de seus aliados. Foi conspirador, sofreu conspiração, e morreu apunhalado, por vários motivos (políticos e econômicos), como os já citados, e não só por motivos particulares e sua pretensa e mal disfarçada vontade de ser rei, como aponta Suetônio.    

   Fabrício Ferreira Barboza

    
Bibliografia
GUARINELLO, Norberto Luiz, Imperialismo Greco-romano, São Paulo, Ática, 1987.
TRANQUILO, Caio Suetônio (séc. I d.C), Los doce Césares, tradução do latim: Jaime Arnal, Barcelona, Ediciones Orbis, S.A, 1985.

SUETÔNIO (séc. I d.C), As vidas dos doze Césares, tradução de Sady-Garibaldi, Athena Editora. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

A DANÇA DOS DEUSES. QUANDO OS TAMBORES TOCAM O PASSADO: REFLEXÃO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA DANÇA PARA OS POVOS DA ÁFRICA SUBSAARIANA


A fim de facilitar esta reflexão sobre a importância da dança entre os povos da região subsaariana, procurarei apresentar algumas considerações sobre este e outros costumes presentes nos filmes que foram objeto de reflexão (Vinte e cinco, José Celso Martinez Corrêa e Celso Lucas, 1975, 120′, DVD; “Cinema II - A imagem do Tempo”. Jean Rouch.). Cabendo ressaltar que, em razão da complexidade do tema abordarei as questões secundárias de maneira sucinta. Procurarei ater-me apenas a relevância social da dança para estes povos.
Em razão do escasso material historiográfico sobre o tema, utilizarei as produções antropológicas que tratam desta de outras questões decorrentes, procurando um possível diálogo entre estas fontes.
Não tenho certeza aonde os meus pés irão me levar, nem se o caminho escolhido é o mais sensato, contudo o tema merece este risco, e o risco seus créditos.
As diversas etnias existentes na África subsaariana possuem histórias bem particulares de guerras e conciliações, de acordos e desmandos, de mitos e verdades que se mesclam em contos tão fantásticos quanto improváveis. A tradição oral permite que estas histórias permaneçam vivas na lembrança das pessoas, mas não impedem que elas sejam influenciadas a partir do contato com outras culturas, sobretudo as que se originam do ocidente.
Os grupos étnicos da África Subsaariana criaram, a partir de suas vivências, seus mitos e verdades, estratégia para a manutenção de suas culturas e costumes. Mas quando sua vivencia é profundamente alterada, a partir do contato com as culturas ocidentais ao longo dos últimos quatro séculos do milênio anterior, de que maneira estas tradições conseguiram sobreviver? De que forma o sobrenatural, tão presente nos mitos consegue coexistir com a modernidade apresentada nos filmes acima citados? Como estes costumes atravessaram o tempo e principalmente os oceanos? Estas e outras questões surgem a partir do que foi apresentado nos filmes acima citados.
Notadamente em alguns trechos dos filmes observei a importância da dança, como também de outras manifestações culturais, não somente nos momentos festivos, mas também nos momentos de conflito, como é o caso da emancipação de Moçambique. Os movimentos e suas respectivas ladainhas têm um profundo significado que a lente do artista não captou, ou pelo menos não está tão claro.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A obra de Pierre Vidal-Naquet chamada “O mundo de Homero”.


Dados Biográficos de Pierre Vidal-Naquet

 

    O autor da obra “O Mundo de Homero” é o ilustre pesquisador e historiador francês Pierre Emmanuel Vidal-Naquet, nascido em 23 de julho de 1930, na cidade de Paris, e faleceu em 29 de julho de 2006, na cidade de sua origem. Vidal-Naquet era de uma família republicana e laica, filho de judeus, seus pais foram presos pelos nazistas, e levados pela Gestapo ao campo de concentração de Auschwitz, no qual foram assassinados. Deste fato que ocorreu com seus pais resultou no ingresso, desde cedo deste autor, no objetivo de denúncia de todo esforço contra as pessoas que tentavam minimizar o Holocausto e seus efeitos.            Formou-se historiador na Faculdade de Letras de Paris[1].
    Este autor é especialista em Grécia Antiga, onde esta obra analisada (“O Mundo de Homero”) ilustra sua paixão pelo período, no qual usa como fontes às obras de Homero (“A Ilíada” e a “Odisséia”). Porém, trabalha também com História Contemporânea, em especial a Guerra da Argélia, dentro do recorte de 1954-1962, sobre o qual foi contra sua pátria na tortura de nativos argelianos, além de pesquisar também a História Judaica. Junto com Michel Foucalt e Jean-Marie Domenach, fundaram o “Groupe d’infromation sur les prisons” (GIP), que tinha como função a crítica do revisionismo histórico e do holocausto, devido às condições das prisões francesas, por causa da experiência de seus pais. Sua carreira profissional foi sempre focada em suas linhas de pesquisas, no qual escreveu inúmeras obras sobre a Grécia Antiga e a História Contemporânea, também trabalhou ao lado de grandes helenistas como Pierre Leveque, Michel Austin e Jean Pierre Vernant, influenciando sua visão sobre a História Antiga. Logo, foi professor da “École des Hautes Études em Sciences Sociales”, posteriormente diretor do “Centre Louis Gernet”, fundado por Jean-Pierre Vernant, autor com quem escreveu muitas obras sobre a Grécia Antiga. As instituições no qual trabalhou, assim como os seus colegas de profissão que estavam mais próximos, lhe abriram os olhos para a historiografia francesa e seus debates sobre “como realizar pesquisas sobre a Grécia Antiga e novas metodologias de abordagem”, pois conhecer os locais onde o autor trabalho é significativo para a compreensão da formação de seu pensamento de trabalho. Também lecionou na Faculdade de Letras de Lille e na Universidade de Lyon.
     Na Segunda Guerra Mundial, Vidal-Naquet participou da resistência contra a ocupação nazista na França, ainda que adolescente, no qual este foi o evento que resultou na captura de seus pais pelos nazistas mencionados anteriormente, e, também na sua devoção na denúncia contra os maus tratos franceses ao povo argelinos e o Holocausto. Relata na obra que será analisada, “O mundo de Homero”, que foi na sua infância na França antes da Segunda Guerra Mundial onde ocorreu o seu primeiro contato com as epopéias de Homero, a Ilíada e a Odisséia, no qual diz ser Homero o poeta fundador da literatura ocidental, carregado de histórias sobre o povo grego e sua literatura, de importância para se saber como foi abordada a obra em uma primeira leitura pelo autor Vidal-Naquet, com o fim de apontar o primeiro contato com a área de História Antiga e a formação de seu interesse pelo período. Assim, a tese de Vidal-Naquet apresenta nesta obra é uma síntese das principais questões relacionadas à identidade de Homero e à Grécia antiga, como relata o próprio Naquet:


“Meu desejo, com este livro, é tentar fazer com que leitores de todas as idades partilhem a alegria que essas duas epopéias me deram – e sempre me dão -, ao contar certos episódios, e naturalmente também tentar situá-los no seu contexto, tanto no espaço como no tempo.”[2]


    Este trecho exemplifica o mesmo problema do contexto que viveu Vidal-Naquet, pois após o conflito da Segunda Guerra Mundial, o mundo se encontrava a beira de crises de identidades nacionais, assim como Homero. Ainda que baseado na corrente de estudos sobre as epopéias de Kosovo, que servem de ferramenta para um conjunto de hipóteses bastantes plausíveis relativas à gestão da Ilíada e da Odisséia, notamos que o autor em suas entrelinhas desse excerto deixa implícito como ocorreu seu interesse nestas obras. Desta forma, discute-se a relação dos textos de Homero com a realidade histórica, pois na atualidade os arqueologos e os historiadores não têm tanta certeza sobre as características de uma Pólis, mas, em compensação os outros aspectos da sociedade grega arcaica e do surgimento da Pólis dão uma interpretação simples e mais adequada deste problema. Este trecho reflete o fio condutor de Vidal-Naquet nas pesquisas voltadas a Grécia Antiga, assim como o contexto que começou a realizar seus estudos, dentro de uma linha da historiografia francesa e suas áreas auxiliares.